Um colóquio internacional e uma exposição bibliográfica dedicadas ao poeta vão trazer à Fundação Calouste Gulbenkian de Paris, nos dias 17 e 18 deste mês, das 9 às 18horas, Manuel Alegre, Eduardo Lourenço, Clara Crabée Rocha (filha do poeta), Emílio Rui Vilar (director da fundação que acolhe o evento), Catherine Dumas, Maria Graciete Besse, Maria Helena Araújo Carreira, Fernando J.B.Martinho, Teresa Rita Lopes, Luís Mourão, Paulo de Medeiros (entre outros professores e pesquisadores académicos). Este evento acontece no centenário do nascimento de Adolfo Rocha, aliás, Miguel Torga.

Escapar à pobreza


Adolfo Correia Rocha nasce em 1907, em São Martinho da Anta (Trás-os-Montes), uma aldeia portuguesa de um Portugal profundo, 3 anos antes da República se implementar no país. Era filho de um «pobre cavador sensível» que «chorou de alegria» por ver o seu filho passar com distinção no exame da quarta classe e por isso mesmo lhe ofereceu um cavaquinho para que a música alegrasse o agreste dos dias do rapaz que deveria ter por fado ou o trabalho árduo que a terra exige, ou o seminário para que os estudos prosseguissem. Miguel Torga nasceria em 1934, quando Rocha contrariando o seu destino, era já estudante de medicina em Coimbra e trás a lume A Terceira Voz, depois de uma temporada emigrado no Brasil, em casa de um tio, o mesmo que lhe financiaria os estudos na capital estudantil portuguesa. O pseudónimo Torga faz referência a uma planta bravia (urze) que nasce espontânea no chão de Trás-os-Montes e  Miguel faz referência à admiração que o poeta tinha pelos escritores Miguel de Cervantes e Unamuno, Miguel Torga torna-se poeta e prosador. Canta a terra áspera de clima inclemente, berço de granito mas também de lavoura; canta a gente que cava o chão e faz o pão feito de suor; fala de um país, à época, à esquina das esquinas da Europa, um país que poucos queriam falar, descortinando assim a dimensão real da humanidade.

Estátua de Torga no Parque de Poetas de OeirasUm iberista assumido

Em toda a sua obra um certo iberismo (assumido) esboça-se: « a minha pátria cívica acaba em Barca de Alva, (...) a minha pátria telúrica nos Pirinéus.», a provar o tom actual da sua filosofia.  Perdidos os impérios coloniais, findas as ditaduras que emergiram da crise finissecular nos dois países, criada a União Europeia, que relações para estes dois estados que desde há muito partilham alegrias e as suas tristezas? O que Torga propõe passa pela reivindicação de um legado cultural e um destino comuns para as pátrias de Camões e Lorca, poetas que lia e admirava. Para Torga a Península Ibérica deve ser uma colectividade de nações unidas telúrica e espacialmente num único espírito. Escreveu, este médico feito poeta : «trago torgas à rosa de Granada» e «enquanto houver poesia continuará a existir vida e o povo na Ibéria.» Torga: historiador que antecipa a história? Visionário? Profético? Pro-Europa, assumido!

PESADELO DE D.QUIXOTE
Sancho: ouço uma voz etérea
Que nos chama…
Ibéria, dizes tu?!... Disseste Ibéria?!
Acorda, Sancho, é ela a nossa dama !
Pois de quem hão-de ser estes gemidos?!
Pois de quem hão-de ser?!
Só dela, Sancho, que nos meus ouvidos Anda o seu coração a padecer…
Ergue-te, Sancho! Quais moinhos?! Quais?!
Ai! Pobre Sancho, que não sabes ver
Em moinhos iguais
Qual deles é só moinho de moer

Obras como Ansiedade (1930), O Outro livro de Job (1936), Orfeu Rebelde (1958), A criação do Mundo (1937), Poemas Ibéricos (1965), Novos Contos da Montanha (1944), Um Reino Maravilhoso (1941), Terra Firme, Mar (1941), Bichos (1940), Diário (16 volumes entre 1941 e 1983) e muitos outros  fizeram com que o Nobel se escapasse por pouco. A sua aversão à fama era conhecida e talvez por isso fique na a ideia de alguns um Torga de carácter duro, avesso aos meios das elites vaidosas. Recusou o primeiro prémio literário que lhe foi atribuído em 1954, no entanto aceitou receber muitos outros, entre os quais o Prémio Camões, em 1990.


A VIDA É FEITA DE NADAS

A vida é feita de nadas
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas pelo vento;
De casas de moradia
Caídas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;
De poeira;
De sombra de uma figueira;
De ver esta maravilha:
Meu pai a erguer uma videira
Como uma mãe que faz a trança à filha.

Adolfo Rocha, o médico, o homem que consultava, falava, prescrevia receitas aos seus pacientes e todos os dias passava pela Farmácia Rodrigues da Silva para dar dois dedos de conversa ao seu amigo João Fernandes, faleceu no dia 17 de Janeiro de 1995. Tinha 87. Hoje, a diversidade, originalidade e porte da obra de Miguel Torga: 700 poemas, 94 novelas, 2 romances, 16 volumes de diário, 2 volumes de ensaios, 15 antologias poéticas e 3 peças de teatro fazem dele um dos maiores vultos da Literatura Ibérica de sempre e um dos maiores poetas europeus do século XX.

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Photo Estátua de Torga no Parque de Oeiras: Portuguese_eyes/Flickr)