A Alfama lisboeta é, seguramente, um dos bairros mais humildes das grandes capitais europeias. Isso não impede que as suas paredes resumam toda uma cultura e sensibilidade poéticas. Nesta imagem captamos as pinceladas de um extracto de um poema do chilenoPablo Neruda, poeta que também foi embaixador do Chile em Espanha e França.

Versos de Neruda em Alfama


Trata-se do poema 14, o mais conhecido de  Vinte poemas de amor e uma canção desesperada. O excerto reza assim:

Quero fazer contigo
o que a Primavera faz com as cerejeiras.

O que é que o poeta quer fazer com a sua amada, afinal? Pelo tom do poema, o leitor pode figura-lo com facilidade, mas mais concretamente que significam estes versos? Para poder responder é preciso ter conhecimentos básicos de botânica. A árvore onde nascem todas as cerejas, é juntamente com a amendoeira, uma das primeiras árvores a desabrochar as suas flores. Fá-lo em finais do Inverno – uma flor branca e pequena com reflexos cor-de-rosa, se a miramos de longe -. No entanto, também é uma das primeiras a perde-las: o seu ‘desfolhamento’ acontece com a chegada da Primavera. Agora já sabemos o que o poeta quer: “desfolhar” a sua amada, colher a sua flor, a sua virgindade. Conseguem imaginar a cara da mãe da rapariga ao ver estes versos ‘tagados’ pelo poeta na dianteira da sua casa em Lisboa?