Tarek Eltayeb : "Mahfuz pedia-me para ler a minha poesia"
This post is also available in: Spanish French Italian

A primeira vez que o contactámos foi em Outubro passado, em Trieste, durante o festival internacional Sidaja, organizado pela Casa della Poesia local, que recebe todos os anos os poetas mais ‘importantes’ da cena poética europeia e mundial (com figuras como a italiana Rosaria Lo Russo, a anglo-americana Judi Benson, o português Casimiro De Brito, o islandês Sigurbiörg Thrastardóttir ou o croata Branko Čegec, a marcarem presença).
Sorridente por natureza, Eltayeb parece agora disponível para uma conversa que se adivinha tranquila.
Foi na capital austríaca que ele escreveu a sua obra poética mais acarinhada, Água e café , que iremos traduzir de seguida.
Cem vezes por dia ele repete:
“Devo entrar, aqui reina a inclemência.
Ali, o bem e o calor e...”
Depois
pergunto-lhe: “Onde ali ?”
E ele aponta-me a direcção com a mão
E a sua volta perde os traços
A seguir
Agarro-lhe a mão num canto calmo da taberna
Sentamo-nos numa mesa
Peço um café para ele, e água para mim
Falo-lhe em árabe e ele acrescenta água ao café
Ele zanga-se: “És louco?”
Ele tenta tirar a água do café
Ele tenta
Ele intenta de restituir a água à água.
Uma infância entre Steinbeck, Hemingway e algumas histórias de mulheres
Tarek lembra-se que o seu pai tinha uma biblioteca pessoal muito bem fornecida, com os clássicos árabes, mas também os contemporâneos e os ocidentais. “ Era um apaixonado das letras. Quando ele lia, deitado na sua cama, eu folheava os livros e os jornais com ele, e na altura eu nem sequer sabia ler. Tentava imitar…”, relembra o poeta. “Estava convencido que, não só era preciso ler, mas que os próprios livros tinham sido escritos pelo meu pai, porque – meticuloso como ele era – assinava o seu nome em todos eles. Eu lia autores clássicos árabes, mas também os ocidentais contemporâneos, tais como Steinbeck ou Hemingway, ou o egípcio Nagib Mahfuz. Quando entrei para a escola, já sabia ler e escrever, e a professora, que se ia dando conta que eu estava mais avançado que os outros meninos, confiava-me o seu filho, um pequeno pestinha que só se acalmava quando eu lhe contava histórias. Se a história que eu lhe contava à segunda-feira tinha um macaco como protagonista e a de terça-feira uma girafa, entre entrava em cólera para comigo e exigia que eu recomeçasse com a primeira história. Foi assim que nasceu em mim a necessidade de escrever”.
As mulheres da sua família também o influenciaram : “A minha mãe, a minha avó e a minha tia juntavam-se, todas as tardes com as vizinhas, para cozinhar. Estas reuniões femininas davam-me a possibilidade de ouvir histórias e comentários muito picantes. Quando o meu pai me obrigava a ficar entre os homens, a ouvir os discursos de economia e de politica, eu acabava por me aborrecer: era muito mais divertido ouvir as mulheres!” As crianças tinham igualmente um papel destaque na família: “ Se a minha avó saia para ir às compras, para não perder uma só vírgula do que se dizia na rádio, ela pedia-nos para tomar nota, para mais tarde lhe contarmos. Éramos muito novos, na verdade, cada um de nós acabava por contar uma versão diferente daquilo que tinha ouvido:cada um de nós criava o seu recital, e apimentava-o. Também isto me valeu para a minha actual actividade de escritor ”.

Estudante no Egipto e em Viena, passando pelo Iraque
Tarek, de origem sudanesa, nasceu em 1959 no Caïro, onde viveu 25 anos. Portanto, ele conhece bem a realidade deste país, onde ele ainda vai de tempos a tempos. Mas porque escolheu ele viver na Áustria? “ Cheguei aqui à 23 anos sem falar a língua e sem um tostão no bolso. Não me considero um poeta no exílio, porque eu estou aqui por vontade própria: no meu país não havia oportunidades profissionais e intelectuais. Para além disso, no início dos anos 80, havia tensões politicas entre o Egipto e o Sudão: para o governo eu era sudanês, e a pressão para os estudantes sudaneses foi insuportável. Uma vez que acabei os meus estudos em economia, comecei a trabalhar num gabinete de auditoria, mas com funções de secretariado e com um salário raquítico”.
Em 1981, o jovem Tarek decide mudar-se para um outro país muçulmano. Algo complicado, na medida em que: « dizem que os países árabes são “países irmãos”, mas ainda falta demonstrá-lo». No Iraque, um amigo sudanês dá-lhe emprego num restaurante. “Nós estávamos por nossa própria conta, e ainda que o restaurante fosse grande, não teve sucesso algum. Ele ficava mesmo ao lado de uma esquadra da polícia que fechava as portas às seis da tarde em ponto. Logo depois até ao amanhecer, as facções curdas e árabes combatiam umas contra as outras e nós estávamos ali no meio.”Uma situação difícil e dura. A guerra entre o Irão e o Iraque tinha acabado de começar e era difícil abandonar o país. “Felizmente que os sudaneses não eram suspeitos nesta guerra. Quando o meu amigo soube que era dos poucos a poder movimentar-se em liberdade, ele pôs-se a comercializar especiarias e tecidos que nós só podiamos encontrar no estrangeiro. Até ao dia em que ele desapareceu com o dinheiro dos clientes e mais ninguém lhe pôs a vista em cima: evidentemente, ele tinha-me voltado as costas e eu voltei ao Cairo.”
Foi a primeira vez que Eltayeb falou das suas desventuras em terras iraquianas e do seu antigo amigo. Há alguma influência de todos estes episódios na sua literatura? “Eu não quis que os filhos pagassem a factura do pai. Eis o porquê de nunca ter falado disto a ninguém. Se eu fizesse um filme sobre a minha vida talvez eles o vissem e se reconhecessem nele. Mas isso não faz parte dos meus planos, por agora.”
Em Viena por amor à Europa. E depois, por Amor.
De volta ao Cairo, decide partir para a Europa. Mas porquê Viena? “Não queria fazer como todos os sudaneses, que partem massivamente para países anglófonos ou francófonos. Queria recomeçar tudo do zero. Ao inicio pensei em vr para a Alemanha, mas depois descobri, a tempo e horas, que na Austria os estudantes do Terceiro Mundo, não pagam propinas universitárias.” Eltayeb preferiu ser prático. A Europa desde sempre o tinha cativado pela sua diversidade cultural e pela sua sociedade bem mais plural que a dos Estados Unidos, onde temos a impressão, que para um estrangeiro “ é muito mais difícil de viver, mesmo se me oferecessem um posto melhor remunerado, eu não sairia daqui. O estilo de vida americano não me seduz, não responde, nem corresponde às minhas exigências de vida”. Depois a Ursula, a sua mulher, entrou na sua vida. “Quando anunciei ao meu pai que me ia casar aqui no norte ele não me condenou. E ele, único filho rapaz de um pai rodeado de treze mulheres, quando foi para o Cairo para casar com a minha mãe, foi deserdado pelo meu avô.”
Todas estas influências culturais marcaram a sua linguagem literária: “Mesmo que a minha literária seja o árabe classico, inclui igualmente nuances do dialecto sudanês do mau pai, o árabe do Cairo e, naturalmente o alemão, porque eu vivo em Viena para lá de vinte anos”.
No Cairo com Nagib Mahfuz
“Um dia há dez anos”, recorda, “um amigo convida-me para ir a um café no Cairo, perto de minha casa, onde Nagib Mahfuztinha encontros literários. Pediu-me para que lesse histórias. Assim, que o prémio Nobel soube da minha presença no café, quis que me sentasse ao seul ado e eu senti-me como um miúdo colegial. Ele queria saber como era a vida na Áustria, as diferenças em relação à vida egípcia; ele estava muito interessado nos meus projectos criativos. Não só tinha lido as minhas histórias, como as conhecia muito bem”.
O Amor no tempo da Censura
O próprio Mahfuz, em 1994, foi vitima de um atentado terrorista. Ele tinha ousado personificar os profetas do islão – Caïn, Abel, Jésus e Mahomet– num romance nunca publicado no Egipto. “O homem que o tentou matar ”, explica Eltayeb “ nem sequer tinha lido o seu romance.Ele tinha ‘ouvido dizer’que o livro era perigoso para a religião. Depois, proposeram à Mahfuz de publicar o livro no Egipto (Filhos da Medina), mas ele viria a declinar o convite, argumentando que as pessoas não o compreendiam”.
Existe ainda Censura no Egipto ? “Vivemos numa situação bizarra. O Governo é conservador, e mesmo se a censura não é evidente,ela vem de todas as direcções. Tudo o que é cultura, dança ou canto é proibido se vai ao encontro da fé oficial, e a literatura é considerada uma inimiga da qual é preciso desconfiar. Um dos meus contos foi, censurado, por exemplo. Nomeadamente, por causa de uma das cenas onde o protagonista, um cidadão estrangeiro, Jospeh, exprime a sua inveja ao seu interlocutor, um massagista austríaco cego, porque este tinha a felicidade de tocar os corpos e de ter as suas mãos sempre em contacto com a pele dos outros. Foi uma passagem considerada muito sexual”.
A Censura não se reduz aos autores contemporâneos: “Há pessoas consagradíssimas na procura sistemática de expressões para “ele beija-a”, “ele acaricia-a”, “ele acompanha-a à cama”, que depois dão em “ele descortina-a”, “ele acompanha-a aos jardins”. Há 14 anos, eu estava no Cairo e quis comprar quatro volumes das Mil e uma noites. Deram-me quatro miseráveis livrinhos. Quando pedi explicações ao livreiro, ele explicou-me que se tratava “da versão melhorada e purificada de toda a imortalidade e blasfémia da versão original”. Situações que se repetem ainda hoje.
Com a colaboração de Michela Zanotti para a tradução simultânea do alemão
Futebol: Brasil contra Itália, o caso Battisti no terreno do jogo