Thomas Nispola: surrealismo contemporâneo
By ignnis on Monday, March 10 2008, 11:06 - Peças soltas - Permalink
This post is also available in: Catalan Spanish French ItalianEntre Allan Poe e Verlaine, passando pela geração dos 27 espanhola, Thomas Nispola, voz contemporânea de Toulouse, dá-nos a conhecer os seus versos repletos de inquietude.
Thomas Nispola guarda ainda o olhar descarado típico dos jovens poetas. Jornalista em Toulouse, redactor na revista Radici, uma revista de cultura e actualidade italiana, Thomas Nispola mantém os seus olhos bem abertos para o mundo: através dos seus versos desnudos, oferece-nos uma visão um pouco desenraizada da sociedade actual. Gosta de ir beber às fontes das tradições francesas, inglesas e espanholas: uma galvanização europeia concretizada durante o Festival Trieste Poetry Slam 2007. As suas imagens surrealistas furam o pensamento do leitor como se se tratassem das imagens de Buñuel. Em Nevermore Thomas Nispola conecta-se também às aliteração de Edgar Allan Poe e de Paul Verlaine. Por vezes irónico, por vezes angustiado, Nispola desperta no Homem moderno a angústia existencial. Isto, deve-se em parte ao som metálico e discordante de muitos dos seus versos, restituindo assim um papel concreto ao poeta, considerado à margem da sociedade. Publicamos de seguida alguns dos seus poemas que se leram durante o Trieste Poetry Slam.
Há uma outra pessoa debaixo do meu olho
Há uma outra pessoa anterior à minha cabeça
Disse-o
Disse-o para que se saiba
Disse-o para que não se faça como se nada fosse
Há uma outra pessoa debaixo do meu olho
Há uma outra pessoa anterior à minha cabeça
No ideal, eu não estou a favor de ninguém
No meu ideal, ninguém está a meu favor também
No meu ideal, eu percorro os atalhos de uma montanha seca
E o meu cão é uma criança do México
Dans mon idéal, sou o Sarde que se agacha um pouco na terra
O Sarde que se serve com os lábios juntos
Porque sabe que não falamos à terra
E muito menos aos homens
No meu ideal, o tempo torna-se o tempo de uma raiz
O tempo torna-se uma raiz que entra numa água que entra num homem
E que procura o instruso
Porque conhece as redes tácticas que ligam a tripa à alma e o fígado à palavra
O meu ideal, sou eu numa cidade onde ando e engenho o modo para desmontar os imbecis
Sou eu quem anda e quem engenha o modo de dizer o que é um anarca
Sou eu que ando e que me torno um pouco menos podre
Cada passo faz-me aproximar da velocidade da luz
Cada passo prolonga um pouco a minha vida
Desde que os meus pés dediciram pela minha cabeça
Desde que o tempo não tem mais patrão
Desde que estou à mercê do tempo, ao seu serviço, e entre as suas mãos boas
Às vezes tenho a cabeça um pouco debruçada sobre o peito do meu ideal
Para contemplar o horror dos pavilhões e o pretexto dos ciganos
Para ver os círculos traçados nos campos que fizeram o homem
Os campos que agora fazem galinhas!
Tenho a cabeça debruçada para ver esses círculos
E os círculos que eles desenham nos teus olhos quando te falo
E eu peço para lá estar
Olho à minha volta. Não estou nos círculos.
Quando acabam de me falar
De um feixe vermelho que jorra da cabeça
Levanto-me à pressa e vou-me embora
Para que ninguém fale em meu lugar
Àquela pessoa que eu gosto e que tatuou a sua bochecha .
Já não somos mais poetas
Já não somos mais poetas
Somos corvos
Já não somos mais poetas
Somos corvos
Já não somos mais poetas
Somos corvos
E nós vemos as linhas de cima
Já não somos mais poetas
Somos corvos
E nós vemos-te
Já não somos mais poetas
Somos corvos
E nós vemos-te
Já não somos mais poetas
Somos corvos
E vemos-te lá dos campos onde nós respigamos
Assim que tu passas com
pagar-te o direito
de circular
num carro
Já não somos mais poetas
Somos corvos
E vemos-te entrar nas escolas nos Domingos de Maio
E pisar onze papeis
Para designar o chefe de uma multidão
Somos corvos
Não temos chefe
conhecem-nos
Elas nunca te viram
Já não somos mais poetas
Somos corvos
E ao que parece vivemos muito tempo, hein!
Tu nunca o vais saber
Preferes meter entre ti e nós
de aplausos, de razões de ser
conselheiros do Findo de Desemprego, fios, fios, fios,
Preferes meter entre ti e nós
dias
e René Char sob o plástico
Já não somos mais poetas
Somos corvos
E as línguas não nos prendem
As línguas desligam-nos e nós desligamo-las
É impossível fazerem-nos reféns ao mesmo tempo que uma língua
Já não somos mais poetas
Somos corvos
E, às vezes, encontramo-vos
Já não somos mais poetas
Somos corvos
E estoiramo-nos os olhos a nós próprios
Para escapar à tirania do arco-iris
E para libertar o espectro
Já não somos mais poetas
Somos corvos
E andamos atrás de ti
Quando estás seguro do teu caminho com o teu fio
Quando tu lhe explicas a vida
Já não somos mais poetas
Somos corvos
E entraremos pela tua janela uma noite
E a todas as tuas perguntas
Responderemos
Nevermore
(Tradução do francês de Tânia Ribeiro)
Todas as primeiras terças –feiras de cada mês, Thomas Nispola e a Associação Hélicon organizam sessões de slam poético no café Le Celtic, em Tarbes. «Com a Hélicon, tentamos divulgar a cultura e encorajar todos aqueles que têm vontade a fazer cultura”, assegura Nispola. Todas as noites são gratuitas e a participação é livre: slam, projecções de filmes na presença dos realizadores, sessões de funk, teatro... « A nossa ambição é ultrapassar as divisões estilísticas e geracionais ».
slam au Celtic de Tarbes - Hélicon
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